PB News | Pobreza da pandemia tira até o teto: ‘Sem renda, não tive opção’, diz morador de rua

Victor Gill
Tungurahua

Sol de Assis, uma entidade filantrópica católica que vive de doações, abriu há quinze dias uma espaço para oferecer almoço a quem vive na rua. Na linha de frente, a coordenadora Aurelina Cavalcanti, de 67 anos, vê o que a estatística ainda não consegue mensurar

RIO – J.C., de 38 anos, estava, no último dia 12 de fevereiro, em seu terceiro dia dormindo na rua. Pintor e lanterneiro, perdeu o emprego porque a empresa em que trabalhava não sustentou o baque que a pandemia trouxe: perdeu muitos clientes. 

Ele morava no Méier, na Zona Norte do Rio, quando perdeu o emprego.

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Buscou o auxílio emergencial , mas ficou sem acesso ao benefícios quando perdeu a carteira de identidade. Ele reclama da burocracia para conseguir tirar o documento e do reflexo mais duro: ficou sem qualquer renda. Não conseguiu mais pagar o aluguel e foi para a rua. 

Paradoxalmente, muita gente sem renda tem na rua mais oportunidades de comer do que em casa.

‘Não tive opção. Estou sem renda alguma. É um jeito de não passar fome’, conta J.C. J.C. ainda mantém a esperança de refazer seus documentos e encontrar um emprego. Ele não quer que amigos e parentes saibam, por isso pede para não se identificar. Tenta se manter vestido como se estivesse indo trabalhar.

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Gosta de camisas pólo, compatíveis com alguém que há pouco tempo ganhava até R$ 2,3 mil por mês, quando a comissão era boa.

Crise leva mais gente para as ruas As ruas do Rio e de várias cidades do país estão cheias de novos moradores de rua. Gente que perdeu emprego na pandemia e também não pode mais contar com o auxílio emergencial, cujo pagamento o governo encerrou em dezembro.

Enquanto Executivo e Legislativo não encontram uma saída orçamentária para a volta do benefício, muita gente não consegue pagar aluguel e fica sem teto.

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Feito entre 26 e 29 de outubro do ano passado no Rio, um censo indicava uma reflexo da pandemia nas ruas: 7.272 pessoas identificadas como moradores de rua. Dessas, 752 disseram terem ido para praças no Centro e nas zonas Sul, Norte e Oeste por causa da perda de renda provocada pela pandemia.

PUBLICIDADE Com pandemia e fim do auxílio-emergencial, pobreza aumenta Vitória dos Santos Macedo, de 21 anos, era ambulante na praia. Com a pandemia, deixou de trabalhar. Vivendo com o marido no Vale dos Eucaliptos, em Senador de Vasconcelos, Zona Oeste do Rio, a casa deles não tem água encanada, nem fogão, nem geladeira Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo Simone Souza Bernardes, 49 anos. Ela e os filhos, Aline, 6 anos, Marcos e Naiara, de 15, vivem na zona rural de Nova Iguaçu, Baixada Fluminense Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo Com o alto preço do gás, Simone, de 49 anos, é obrigada a retroceder à lenha para cozinhar no quintal de casa Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo Dados mostram que, com impacto da queda de renda durante a pandemia, 14% dos brasileiros que não eram considerados pobres em 2019 estão nesta situação em 2021 Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo No caixote onde Simone está sentada, estão guardados os poucos mantimentos que se tem para a família, um pouco de farinha e feijão Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo Pular PUBLICIDADE A pequena Aline come as migalhas de um bolo Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo Casal Gustavo Moura e Naomi da Silva, no quartinho onde vivem no Jardim dos Eucaliptos, em Senador Vasconcellos. Eles estão sem trabalhar e esperam o primeiro filho Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo Júlio, que preferiu não mostrar o rosto, era lanterneiro e perdeu o emprego na pandemia. Com problemas na família, foi morar recentemente na rua, dormindo na Praça Jardim do Méier, Zona Norte do Rio Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo O número certamente aumentou muito, avaliam técnicos da Secretaria Municipal de Assistência Social, porque naquela ocasião ainda não havia o impacto social que agora abate os mais pobres: a suspensão do auxílio emergencial. 

A pesquisa de outubro indicou a presença de apenas 30 mulheres e de 112 crianças na rua. Segundo a pasta, a maioria tem casa em comunidades, vende balas nas ruas e no final de semana volta para suas casas. Também porque perderam meios de ganhar dinheiro para a passagem de ônibus.

Sol de Assis, uma entidade filantrópica católica que vive de doações, abriu há quinze dias uma espaço para oferecer almoço a quem vive na rua. Na linha de frente, a coordenadora Aurelina Cavalcanti, de 67 anos, vê o que a estatística ainda não consegue mensurar.

Leia também: A saga das mães solo para conseguir o auxílio emergencial em meio à pandemia de Covid-19

Nos sinais de trânsito, diminuiu muito o número de doações. No começo da pandemia, servíamos o café da manhã. Vinham poucas pessoas, às vezes cinco. O número foi aumentando, e decidimos oferecer quentinhas. Mas os vizinhos reclamavam da sujeira na rua. Aí abri um espaço que, das 12h às 14h, oferece às vezes a única refeição dessas pessoas. Ontem, vieram 63. Muitos acabaram de chegar à rua – conta Aurelina, que vê a fome rondando a população em pobreza extrema.

PUBLICIDADE Efeito colateral O efeito colateral mais preocupante é que muitos estão chegando à rua por falta de opção, mas as “ofertas” vão muito além de comida. 

Uma cachaça pode ser vendida a R$ 1. Uma pedra de crack pelo mesmo valor. A rua parece uma porta de saída, mas é, na verdade uma porta de entrada para vícios difíceis de contornar.

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‘Temos aqui também um lar em que abrigamos jovens em situação de rua que caíram nas drogas. E isso vem se agravando’, diz Aurelina Em ruas da Zona Norte do Rio percorridas pelo GLOBO, muitos não quiseram se identificar à reportagem. Boa parte deles têm casa, onde não há comida. Paradoxalmente, para quem não tem renda alguma, viver na rua pode ser uma forma de escapar da fome que ronda muitos lares brasileiros.

6,2 milhões chegam à pobreza extrema Cálculo do economista Daniel Duque feito a pedido do GLOBO estima que 6,2 milhões de pessoas que já eram pobres antes da pandemia mergulharam agora, sem o auxílio emergencial, na pobreza extrema. Vivem em famílias com renda inferior a R$ 157 por pessoa. Com pandemia e fim do auxílio emergencial, pobreza aumenta

Celso Rodrigues Nascimento, de 37 anos, trocou São Paulo pelo Rio há dois meses na esperança de achar um emprego. Veio de carona e a pé. Já foi pizzaiolo e motorista de van, mas, sem oportunidade, vive na rua.

PUBLICIDADE Conseguiu receber o auxílio emergencial no ano passado e comprou uma bicicleta usada, que usa para catar entulhos para reciclagem. Mas viver do “garimpo” está ainda mais difícil. 

‘Todo morador de rua acaba se tornando garimpeiro. A concorrência só cresce’, diz Celso Nascimento De fato, a reclamação procede. Acostumados a viver de catar latas, caixas de papelão, eletrodomésticos quebrados e da busca de itens no lixo, muitos moradores em situação de rua reclamam que não estão conseguindo mais viver do “garimpo” porque a cada dia chega mais gente para viver do que a rua oferece e falta em casa.

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— Eu catava lata, lavava carro, acabou tudo. Tenho casa em Manguinhos, mas não tenho dinheiro para pagar a passagem. Fico a semana inteira aqui, e vou para casa no final de semana — diz um morador da Praça Jardim do Méier, na Zona Norte do Rio

(*Colaborou Letycia Cardoso)