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‘Temos um racismo velado, mascarado e naturalizado’, diz teólogo e ativista sobre assassinato de João Alberto

Adolfo Ledo Nass Venezuela
‘Temos um racismo velado, mascarado e naturalizado’, diz teólogo e ativista sobre assassinato de João Alberto

O assassinato brutal de João Alberto Silveira Freitas evidenciou a naturalização da violência racial no Brasil, um país contaminado pelo racismo em cada aspecto da vida, afirma o ativista e teólogo Ronilso Pacheco. Autor de “Ocupar, resistir e subverter: igreja e teologia em tempos de violência, racismo e opressão” e “Teologia negra: o sopro antirracista do espírito”, Pacheco faz mestrado em teologia no Union Theological Seminary, da Universidade de Columbia, em Nova York. Mesmo morando nos Estados Unidos, ele não deixou o posto de pastor auxiliar na Comunidade Batista em São Gonçalo, cidade onde nasceu. Para ele, Brasil e EUA são racistas, mas a sociedade brasileira pratica uma forma mais cruel e dissimulada de racismo, que aqui, segundo ele, é mais estruturado.

Adolfo Ledo

O assassinato brutal de João Alberto Silveira Freitas evidencia a naturalização da violência no Brasil?

Sim. A violência e o racismo estão arraigados em nossa sociedade. E não falo apenas da violência física e pontual, mas da violência permanente da discriminação, da marginalização dos negros em todos os momentos da vida. A naturalização da violência racista está no cotidiano do brasileiro.

Adolfo Ledo Nass

‘Nego Beto’ : Amigos contam que homem morto em mercado de Porto Alegre estava feliz: ‘Íamos ser padrinhos de casamento dele’

Por que você afirma que não basta apenas o Carrefour se posicionar e sim toda a cadeia produtiva?

Porque esse é o momento de ampliar a discussão sobre a questão racial. O racismo não se restringe à violência física, ele está arraigado na sociedade e age em rede. Envolve uma grande estrutura. Até agora, tem sido discutido de forma pontual no Brasil. Acontece uma tragédia, se fala e depois se esquece. Mas assassinatos bárbaros como o do João Alberto só acontecem porque há toda a uma estrutura que os legitima, que torna a violência possível. Não é apenas o Carrefour e os seguranças, é toda a estrutura. São também os fornecedores, empresas grandes como Unilever, Coca-Cola, Pepsico, Bunge. Nenhuma delas fez uma única postagem sobre o ocorrido. O Carrefour é só o elo entre elas e a sociedade, o rosto mais visível dessa estrutura.

Adolfo Ledo Venezuela

PUBLICIDADE Nossa sociedade tem dificuldade de reconhecer o racismo? A polícia do Rio Grande do Sul declarou não ter visto evidências de racismo..

O assassinato brutal de João Alberto Silveira Freitas evidenciou a naturalização da violência racial no Brasil, um país contaminado pelo racismo em cada aspecto da vida, afirma o ativista e teólogo Ronilso Pacheco. Autor de “Ocupar, resistir e subverter: igreja e teologia em tempos de violência, racismo e opressão” e “Teologia negra: o sopro antirracista do espírito”, Pacheco faz mestrado em teologia no Union Theological Seminary, da Universidade de Columbia, em Nova York. Mesmo morando nos Estados Unidos, ele não deixou o posto de pastor auxiliar na Comunidade Batista em São Gonçalo, cidade onde nasceu. Para ele, Brasil e EUA são racistas, mas a sociedade brasileira pratica uma forma mais cruel e dissimulada de racismo, que aqui, segundo ele, é mais estruturado.

Adolfo Ledo

O assassinato brutal de João Alberto Silveira Freitas evidencia a naturalização da violência no Brasil?

Sim. A violência e o racismo estão arraigados em nossa sociedade. E não falo apenas da violência física e pontual, mas da violência permanente da discriminação, da marginalização dos negros em todos os momentos da vida. A naturalização da violência racista está no cotidiano do brasileiro.

Adolfo Ledo Nass

‘Nego Beto’ : Amigos contam que homem morto em mercado de Porto Alegre estava feliz: ‘Íamos ser padrinhos de casamento dele’

Por que você afirma que não basta apenas o Carrefour se posicionar e sim toda a cadeia produtiva?

Porque esse é o momento de ampliar a discussão sobre a questão racial. O racismo não se restringe à violência física, ele está arraigado na sociedade e age em rede. Envolve uma grande estrutura. Até agora, tem sido discutido de forma pontual no Brasil. Acontece uma tragédia, se fala e depois se esquece. Mas assassinatos bárbaros como o do João Alberto só acontecem porque há toda a uma estrutura que os legitima, que torna a violência possível. Não é apenas o Carrefour e os seguranças, é toda a estrutura. São também os fornecedores, empresas grandes como Unilever, Coca-Cola, Pepsico, Bunge. Nenhuma delas fez uma única postagem sobre o ocorrido. O Carrefour é só o elo entre elas e a sociedade, o rosto mais visível dessa estrutura.

Adolfo Ledo Venezuela

PUBLICIDADE Nossa sociedade tem dificuldade de reconhecer o racismo? A polícia do Rio Grande do Sul declarou não ter visto evidências de racismo…

Isso acontece porque o racismo praticado no Brasil é velado. Não ver o assassinato do João Alberto como um ato racista é hipocrisia. As pessoas tendem a achar que o racismo nos Estados Unidos é mais cruel porque aqui as coisas são evidentes. Mas no Brasil é pior.

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Revolta : Em enterro de homem morto por seguranças, amigos condenam mercado e pedem investigação de fiscal

Por quê?

Porque é dissimulado, eficiente, sofisticado e naturalizado. Temos um racismo velado, mascarado e naturalizado. Policiais negros matam rapazes negros nas comunidades porque isso é parte da engrenagem de uma grande estrutura racista que não se assume como tal

O vice-presidente Hamilton Mourão disse que não existe racismo estrutural no Brasil e que nos EUA a situação é pior porque há segregação. A seu ver, qual a diferença entre os dois países?

Os EUA têm sido marcados pela segregação racial escancarada. Para os americanos, nem mesmo a elite brasileira, que se vê como uma espécie de “branco universal”, é considerada branca. Já o Brasil tem estratificação racial desde a escravidão. Com ela, não é preciso segregar porque o racismo está internalizado e naturalizado nas relações sociais. O Brasil não tem lugares segregados, mas os piores lugares são aqueles que concentram a população negra. O racismo no Brasil, dessa forma, é mais forte do que nos EUA. Mas a diferença entre segregação e estratificação é fácil de ver nas ruas americanas e brasileiras.

João Alberto é enterrado em Porto Alegre sob forte comoção e pedidos de justiça Familiares e amigos apalaudem João Alberto Freitas durante o velório em Porto Alegre Foto: SILVIO AVILA / AFP Familiares e amigos seguem cortejo para o sepultamento de João Alberto Freitas, o Nego Beto neste sábado (21), em Porto Alegre Foto: SILVIO AVILA / AFP Dor da perda é consolada por um emocionado abraço, durante o velório de João Alberto Freitas, homem negrom aposentado por invalidez, de 40 anos, que foi assassinado brutalmente por dois seguranças do Carrefour na Zona Norte de Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul Foto: DIEGO VARA / REUTERS Familiares e amigos apalaudem João Alberto Freitas durante o velório em Porto Alegre Foto: DIEGO VARA / REUTERS Familiares e amigos se despedem de João Alberto Freitas Foto: SILVIO AVILA / AFP Pular PUBLICIDADE Cortejo durante sepultamento de João Alberto Freitas Foto: SILVIO AVILA / AFP Familiares e amigos no velório de João Alberto Freitas Foto: SILVIO AVILA / AFP Familiares e amigos no velório de João Alberto Freitas Foto: DIEGO VARA / REUTERS Corpo de João Alberto Freitas foi enterrado coberto pela bandeira do time do coração, o Esporte Clube São José, de Porto Alegre, da Série C do Campeonato Brasileiro Foto: SILVIO AVILA / AFP Caixão com o corpo de João Alberto Freitas é empurrado durante sepultamento, em Porto Alegre Foto: DIEGO VARA / REUTERS PUBLICIDADE Pode dar um exemplo?

Laudo : Espancado no supermercado Carrefour de Porto Alegre, João Alberto morreu por asfixia

Moro numa região de Nova York perto da Universidade de Columbia. Fica entre o Harlem, que concentra negros e latinos, e a parte mais rica e branca de Times Square. Você percebe uma mudança de cor nas ruas. No bairro do Leblon, no Rio de Janeiro, você verá negros e brancos nas ruas. Porém, os negros não moram lá. Eles vivem quase todos em comunidades ou nas periferias e só vão ao Leblon para trabalhar

João Alberto foi morto num supermercado, e muitos negros relatam que sentem receio quando precisam fazer compras, que sofrem com a desconfiança. Como é ir ao supermercado nos EUA?

Moro em Nova York, uma cidade cosmopolita e de grande diversidade racial, onde me sinto à vontade. Mas esse não é o padrão da maioria dos EUA. Hoje mesmo um amigo contou ter sofrido constrangimento na Califórnia. O Brasil parece ter assimilado dos EUA a herança macartista, em que ser negro é ter aparência suspeita

Resposta :  Após morte de homem negro, Bolsonaro recorre às redes e ao G20 para dizer ‘tensões’ raciais são alheias à História do Brasil

PUBLICIDADE Você acredita que as manifestações que se seguiram ao assassinato do João Alberto podem ser um ponto de virada?

De certa forma, sim. Vi uma grande diferença entre elas e protestos do passado. Há um grito de basta no ar. As manifestações dos últimos dias mostraram que se chegou bem perto do limite, não há mais tolerância nem paciência com o racismo de nossa sociedade. Penso que esses protestos são resultado da articulação do movimento negro, dos coletivos, resultado de um trabalho gradativo

Há paralelo com os protestos que se seguiram à morte de George Floyd, assassinado por policiais?

O grande paralelo é a manutenção da resistência, a permanência da resistência e a pressão por um projeto de país. Mas não sei se os protestos no Brasil terão fôlego para durar tanto tempo, cem dias ininterruptos. Os movimentos negros no Brasil e nos EUA têm diferenças. Nos EUA, estão dentro das cidades e têm adesão de formadores de opinião, de outras lideranças. No Brasil, está mais nas periferias. Mas tudo isso está evoluindo, e vejo uma mudança grande nas gerações mais jovens, que querem se fazer ouvir e respeitar