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'A empresa que faz algo não sustentável terá que encerrar as atividades em algum momento', diz cofundador da Tesla

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'A empresa que faz algo não sustentável terá que encerrar as atividades em algum momento', diz cofundador da Tesla

Como um dos pioneiros da revolução dos carros elétricos, o que tem a dizer para empreendedores que buscam soluções e produtos disruptivos? Quando você está atacando um mercado estabelecido, é preciso conhecer a indústria muito bem, saber o que os consumidores querem. No meu caso, que estou preocupado com a sustentabilidade, não posso oferecer um produto apenas dizendo que ele é melhor para o planeta. Ele tem que ser um produto melhor, ter algo mais atraente. Tem que ser mais barato, mais rápido, mais fácil, mais conveniente ou mais gostoso. É preciso ser melhor do que existe por aí

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RIO – Quando fundou a Tesla, ao lado de Martin Eberhard, o objetivo de Marc Tarpenning era até certo ponto modesto: provar que era possível oferecer um carro esportivo, de alta performance, movido a eletricidade.

Jeber Barreto

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Hoje, quase duas décadas depois, a montadora ocupa o posto de mais valiosa do mundo , à frente de nomes como Toyota, Ford e GM. Para o engenheiro americano, que participará da Silicon Valley Web Conference, promovida pela StartSe entre os dias 1º e 30 de outubro, a valorização da companhia demonstra que o futuro da indústria automotiva está na adoção dos carros elétricos, substituindo os motores a combustíveis fósseis

Tarpenning, que em 2008 deixou a Tesla para ter mais tempo de cuidar dos três filhos, acredita que a questão da sustentabilidade se tornou essencial para todas as empresas

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Quando o senhor e Martin Eberhard fundaram a Tesla, em 2003, imaginavam que ela se tornaria a maior montadora do mundo em valor de mercado? A resposta é não, absolutamente. Quando você começa uma companhia, é claro que imagina que ela ganhe escala e cresça, que gere impacto. E nós tínhamos interesse no impacto que a Tesla poderia gerar, porque realmente acreditávamos na transição do consumo de petróleo. Elon Musk tem sido capaz de fazer a companhia crescer de maneira impressionante e o mercado de ações tem seus próprios mistérios, mas a Tesla se transformou num enorme sucesso

No início da Tesla, quais eram os maiores desafios para os carros elétricos? O que impediu que os carros elétricos fossem bem-sucedidos no passado foram as baterias. As baterias chumbo-ácido, que são tipicamente vistas em carros, são basicamente as mesmas desde o início do século XX. Mas Martin e eu éramos da indústria de eletrônicos, e vimos que os produtos e as baterias melhoravam a cada ano. Foram do níquel cádmio para o níquel-hidreto metálico, e então para o íon-lítio. A alta demanda por produtos eletrônicos fazia com que as baterias ficassem melhores e mais baratas a cada ano, e percebemos que essa era a resposta para o problema

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Com essa barreira superada, o carro elétrico está pronto para substituir o motor de combustão? Eu acredito que sim. A Bloomberg prevê que a paridade de preços dos sedans médios, que nos EUA estão na faixa dos US$ 30 mil, deve acontecer em no máximo dois anos. Isso significa que, pelo mesmo preço, você poderá comprar um carro a gasolina ou um elétrico. A diferença é que o elétrico será mais barato para operar. O carro elétrico não precisa de manutenção, não precisa trocar óleo, e tem performance melhor. Todos farão a substituição. A gasolina será para os aficionados, que gostam do cheiro do combustível queimado, do barulho do motor

Mas estão prontos para se tornarem populares? Os preços caem todo ano porque o componente mais caro é a bateria. Como o volume de produção de baterias aumenta, elas ficam cada vez mais baratas. Mas a paridade de preço será na faixa dos US$ 30 mil a US$ 35 mil, que são carros sedans luxo

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Você acha que as montadoras tradicionais estão atrasadas nessa tecnologia? Com certeza! Nas reuniões do Conselho no início da Tesla, a nossa maior preocupação era que, após lançarmos o Roadster, o que aconteceu em 2008, as outras montadoras veriam que é possível ter um carro elétrico com boa performance e nos tirariam do mercado

PUBLICIDADE O esportivo Roadster da Tesla foi lançado ao espaço pela SpaceX Foto: HANDOUT / Reuters Se até uma pequena empresa pode fazer, por que a Volkswagen, a General Motors ou a Toyota não poderiam? Mas foi só quando o Model S se tornou o sedan de luxo mais vendido na Alemanha que eles perceberam que tinha algo acontecendo, dez anos depois de lançarmos o Roadster. Nós nunca imaginamos que eles seriam tão lentos

Agora que elas acordaram, como a Tesla vai encarar a concorrência? Elas têm muitos recursos e muito conhecimento. Certamente elas vão disputar o mercado, o que é bom. Quando fundamos a Tesla, nós pensávamos na transição energética dos combustíveis fósseis, então queremos ter o máximo de carros elétricos por aí, de diferentes tamanhos, estilos e preços. Nós queremos opções para todo o mercado, porque é assim que se alcança a massificação. E é assim que podemos salvar o clima do planeta, literalmente

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A questão da sustentabilidade se tornou essencial para todas as empresas? Certamente, até mesmo pela definição. Quando uma empresa faz algo que não é sustentável, significa que em algum momento ela terá que encerrar suas atividades. Então, todas as empresas devem analisar quais atividades são sustentáveis e quais não são

E, nestes casos, saber o que irão fazer quando tiverem que parar. Quando a Exxon Mobil não puder mais explorar petróleo, o que fará com todos os ativos sem utilidade? E os investidores têm o direito de saber essas informações

PUBLICIDADE A principal concorrência da Tesla vem das montadoras tradicionais ou dos fabricantes chineses? Eu acho que a China tem muito potencial. Eles levarão menos tempo para desenvolver carros realmente interessantes. Quero dizer, eles já produzem muitos carros elétricos, mas que só são vendidos na China. A China não tem uma companhia como a Toyota, com atuação global, mas certamente terá em pouquíssimo tempo. Das grandes companhias, eu vejo a Volvo, que é de um grupo chinês, como um competidor interessante, por já ter anunciado a intenção de abandonar os motores de combustão interna

Polêmico, o diretor executivo da Tesla, Elon Musk, apresentou bons resultados à frente da companhia Foto: Patrick T. Fallon / Bloomberg Mais rico: Musk já é o quarto mais rico do mundo. Veja quem ele deixou para trás

E o que acha das start-ups, como a Nikola? Elas são muito interessantes. Essas start-ups levantaram bilhões de dólares antes mesmo de terem um produto, e isso só foi possível por causa da Tesla. Nós não tivemos essa oportunidade, porque antes de nós não existia um exemplo de start-up bem-sucedida produzindo carros elétricos. Aliás, não existia exemplo na indústria de veículos

Em 2003, vocês previram o futuro dos carros elétricos. E agora, o que imagina para o futuro dos automóveis? É uma boa questão. Eu acho que existem duas coisas acontecendo. Uma é a eletrificação, que eu acredito que vai acontecer. E não apenas por motivos ambientais, mas por preço e por performance. Os carros elétricos são mais velozes que os de combustão interna, então todos os supercarros serão elétricos

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E existem os carros autônomos, que eu acho um pouco mais difícil de engrenarem no curto prazo. Acho que teremos a direção assistida por um longo tempo. Mas o que eu realmente imaginava para o futuro era o transporte intermodal. Você dirige até a estação, de lá pega um trem e quando chega no seu destino, tem um veículo individual autônomo esperando por você. Mas com a Covid-19, não sei se os trens serão uma boa opção

O senhor saiu da Tesla em 2008, logo após o lançamento do Roadster. Por quê? Start-ups dão muito trabalho. Muito trabalho mesmo. E eu tinha três filhos pequenos. Nosso primeiro objetivo, obviamente, era colocar o Roadster nas ruas, e isso estava acontecendo. Depois do primeiro carro, todo mundo estava sendo realocado para o Model S, que era o sedan, o próximo produto. Realoquei minha equipe de engenheiros e, em algum momento, eu teria que me realocar

Na mesma época, o Martin já não estava mais na companhia, e não tinha a mesma graça sem ele. Com a saída do Martin, Michael Marks assumiu o cargo de CEO interino, eu amava trabalhar com ele, mas era temporário. No seu lugar entrou Ze’ev Drori, que eu particularmente não achava uma boa escolha, mas o Conselho gostava dele

PUBLICIDADE Então eu pensei: vou ter que me comprometer por cinco anos com o projeto do sedan, tenho três crianças em casa, e decidi sair. Alguns meses depois, o Conselho removeu o Ze’ev e o Elon, que era presidente do Conselho, se tornou CEO. Eu conheço o Elon desde 2004, e ele era a escolha perfeita para a Tesla, exatamente o que a Tesla precisava naquele momento

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E o que você acha do estilo do Elon Musk à frente da Tesla? É fácil criticar. Certamente, não é o meu estilo, mas ele foi capaz de alcançar grandes negócios. E quando você olha para o que ele entrega, talvez seja parte desse estilo. Steve Jobs tinha um jeito bem incomum que era difícil de lidar, Larry Ellison também. Talvez isso seja necessário

Veja a SpaceX, a companhia mais impressionante nos EUA. No Vale do Silício, quando estamos trabalhando e encontramos um problema, temos o costume de dizer que não é ciência de foguete, porque é possível resolver. Tudo o que a SpaceX faz é ciência de foguetes, literalmente

E é tudo fruto das ideias malucas do Elon, que é maluco em certo sentido, mas talvez isso seja necessário para se chegar lá. Não é o meu estilo, nem sempre funciona e definitivamente causa polêmica. Mas é difícil argumentar com todos esses resultados

PUBLICIDADE Você tem algum arrependimento de ter deixado a Tesla? Não, absolutamente. Eu vivi momentos maravilhosos. Eu deixei a Tesla e cuidei dos meus filhos com a minha esposa. Entrei na política local e fui eleito a um cargo na pequena cidade onde vivo, que está no coração do Vale do Silício. Fui do conselho escolar por nove anos e trabalhei na comissão do condado para a organização do distrito escolar. Fiz coisas que não poderia ter feito se tivesse continuado na Tesla. Eu estou completamente feliz com o caminho que segui

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Em que projetos está trabalhando agora? Eu me preocupo com questões em torno da sustentabilidade. Eu me juntei à Spero Ventures ano passado, para ajudar em investimentos em companhias que tenham foco na sustentabilidade. Empresas com projetos de eletrificação, de melhoria na produção agrícola, de gerenciamento de água, na qualidade do ar..

Como um dos pioneiros da revolução dos carros elétricos, o que tem a dizer para empreendedores que buscam soluções e produtos disruptivos? Quando você está atacando um mercado estabelecido, é preciso conhecer a indústria muito bem, saber o que os consumidores querem. No meu caso, que estou preocupado com a sustentabilidade, não posso oferecer um produto apenas dizendo que ele é melhor para o planeta. Ele tem que ser um produto melhor, ter algo mais atraente. Tem que ser mais barato, mais rápido, mais fácil, mais conveniente ou mais gostoso. É preciso ser melhor do que existe por aí

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